O ataque a uma escola de meninas iranianas, que causou a morte de 168 crianças, marcou o primeiro dia da guerra dos Estados Unidos e Israel contra o Irã, iniciada no último sábado (28). A tragédia expõe os horrores que o conflito no Oriente Médio pode produzir e seus impactos na vida de meninas e mulheres nestes países.
Uma multidão vestida de preto compareceu ao velório das crianças, ocorrido na terça-feira (3). As imagens das valas abertas para receber os caixões enfileirados, acompanhados por milhares de pessoas, correram o mundo. Durante décadas, as violações de direitos humanos no Irã, inclusive contra as mulheres, foram usadas por potências ocidentais para justificar o isolamento internacional de Teerã.
Em nome de uma suposta "libertação" do povo iraniano, um dos primeiros alvos dos EUA e Israel nesta nova ofensiva foi justamente uma escola de educação infantil feminina na cidade de Minab. Além das dezenas de meninas mortas, mais de 90 crianças ficaram feridas. O caso aconteceu pela manhã, enquanto as alunas estavam em aula, segundo a agência de notícias.
A socióloga Berenice Bento, da Universidade de Brasília, afirma que o ataque não tem relação com direitos humanos ou democracia. Apesar dos problemas da República Islâmica, houve avanços sociais nos últimos 47 anos. Dados apontam que a alfabetização das mulheres passou de cerca de 30% nos anos 1970 para cerca de 85% nos anos 2000.
“Mulheres iranianas organizaram um grande movimento, em 2022, o Mulher, Vida e Liberdade, e seguem em luta há décadas. O povo iraniano, os povos árabes, o povo palestino devem decidir seu destino, não os EUA e Israel”, comentou Soraya Misleh.
A história de luta das mulheres iranianas inclui vítimas de prisões e condenações por sua militância. Uma delas é Narges Mohammadi, vencedora do Nobel da Paz em 2023 “pela sua luta contra a opressão das mulheres”. Atualmente, Narges está presa no Irã, condenada a 7 anos e meio de reclusão.
O ataque à escola de Minab foi condenado pela comunidade internacional. O alto comissário das Nações Unidas para os Direitos Humanos, Volker Türk, pediu uma investigação “rápida, imparcial e minuciosa”. Estados Unidos e Israel não reconheceram a autoria do ataque, e as investigações continuam.
“Com o ataque à escola, eles estão querendo dizer que não vão deixar pedra sobre pedra. Para que a própria população civil, diante daquela destruição, se coloque contra o poder local”, avaliou Berenice Bento.
O jornal New York Times sugere que forças americanas podem ser responsáveis, dada a proximidade da escola de um objetivo militar. Agostinho Costa, especialista em segurança, acredita que pode ter sido um erro de alvo, dada a margem de erro de mísseis Tomahawk.