A capital de Mato Grosso do Sul recebeu uma iniciativa conjunta da Agência Estadual de Administração do Sistema Penitenciário (Agepen), por meio do Escritório Social de Campo Grande, e do Serviço Nacional de Aprendizagem Industrial (Senai), voltada ao fortalecimento da autonomia financeira de mulheres em situação de pré-egresso e egresso do sistema prisional.
Foi promovido o Curso de Confecção de Ovos de Páscoa e Trufas, direcionado às internas do Estabelecimento Penal Feminino em Regime Semiaberto e Aberto, assim como para aquelas que já cumpriram pena. Ao todo, 16 mulheres participaram da capacitação gratuita, que ofereceu carga horária de 8 horas/aula e garantia de certificação ao final.
A proposta da formação é proporcionar qualificação rápida em uma área cujo potencial de geração de renda cresce especialmente durante o período da Páscoa, mas que, segundo os organizadores, pode ser aproveitada durante todo o ano.
Na avaliação de Miriel Isadora Miranda Moraes, instrutora de confeitaria e panificação do Senai, as participantes do curso aprenderam desde o procedimento correto de derretimento do chocolate até o controle de temperatura, além de orientações para seleção do tipo adequado de chocolate. Também foram ensinadas diferentes técnicas de produção, como ovos de colher, ovos trufados e trufas.
Durante as aulas, foram apresentadas diversas opções de recheios e sabores, incluindo paçoca, beijinho, brigadeiro de chocolate e doce de leite. Ainda de acordo com a instrutora, o conhecimento adquirido pode ser aplicado não só na fabricação de ovos de Páscoa, mas também em outras áreas da confeitaria, o que amplia as oportunidades de renda ao longo do ano.
Miriel destacou que, com sua experiência profissional de aproximadamente dez anos, pode afirmar que as técnicas ensinadas também servem para a produção de trufas, bolos, tortas, cupcakes e outros produtos relacionados à confeitaria. Ela ressaltou o potencial financeiro da área:
“Essas técnicas podem ser utilizadas para fazer trufas, bolos, tortas, cupcakes e diversos outros produtos. A trufa, por exemplo, é uma ótima fonte de renda e pode ser vendida o ano inteiro”.
Além do conteúdo técnico, o curso abordou as possibilidades de empreendedorismo e retorno financeiro. Segundo Miriel, a margem de lucro na produção desses produtos pode chegar a 100%, sendo considerada uma das melhores oportunidades de geração de renda no período da Páscoa. Se uma pessoa se organizar e antecipar a produção, é possível alcançar até três mil reais de lucro líquido em cerca de um mês de vendas.
De acordo com Rozimeire Zeferino, policial penal e diretora do Escritório Social em substituição legal, a oferta de cursos profissionalizantes representa uma das estratégias mais relevantes para a reinserção social de egressos. Ela destacou que capacitações como essa são fundamentais:
“Os cursos são um dos pilares da ressocialização, porque proporcionam autonomia financeira e dignidade. Muitas mulheres que deixam o sistema prisional são chefes de família e precisam de uma forma rápida de gerar renda. Capacitações em áreas como gastronomia, serviços gerais e estética ampliam essas oportunidades, seja por meio do emprego formal ou do empreendedorismo”.
Rozimeire ainda observou que realizar as capacitações fora do ambiente prisional ajuda a fortalecer o sentimento de pertencimento social das participantes. Ela salientou que a aprendizagem de um novo ofício contribui para que as mulheres reconstruam sua identidade, desenvolvam autopercepção de capacidade produtiva e se vejam aptas a ocupar espaços no mercado de trabalho e na sociedade.
Entre as mulheres que participaram do curso está Kelly Cristina Tavares Oliveira, de 45 anos, atualmente em cumprimento de pena no regime semiaberto e trabalhando no Escritório Social. Ela compartilhou que nutre paixão pela confeitaria desde a adolescência, mas não possuía formação técnica até então. Kelly relatou que a capacitação trouxe nova perspectiva para transformar o gosto em profissão:
“Sempre gostei de fazer bolo desde os 12 anos, mas nunca tive qualificação técnica. Eu sabia fazer, mas não tinha as medidas certas e acabava não tendo lucro. Agora estou aprendendo tudo direitinho e isso vai me ajudar muito. Meu sonho é montar meu próprio negócio e trabalhar com doces, bolos e salgados”.
Outra participante é Miriel Moraes, de 53 anos, com experiência profissional na área gastronômica e atuação como chef em diferentes restaurantes de Campo Grande, incluindo estabelecimentos de culinária oriental. Ela declarou que o curso amplia suas possibilidades dentro do segmento de alimentos:
“Doce nunca foi muito a minha praia, mas uma chef completa precisa saber fazer de tudo. Esse curso está abrindo portas, porque além de aprender algo novo, também é uma oportunidade de renda. A gente pode vender trufas o ano inteiro e reinventar receitas a partir do que aprendemos aqui”.
Para a direção da Agepen, ações de qualificação profissional como essa são essenciais no processo de reintegração social, pois além do aprendizado técnico entregue às participantes, representam a abertura de novas possibilidades de futuro e maior independência econômica.