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Entenda "redpill" e termos de ódio contra mulheres em grupos online

Ideologias como "redpill" e "misoginia" se propagam em fóruns e redes, alimentando violência de gênero e perpetuando hierarquias sociais.

12/03/2026 às 16:08
Por: Redação

Há décadas, grupos de homens têm utilizado fóruns de internet, redes sociais e diversos canais de comunicação para propagar hierarquias de gênero e disseminar o ódio contra as mulheres. Segundo especialistas, esses ambientes e discursos de ódio atuam como catalisadores para ações violentas concretas, exemplificadas pelo recente caso de estupro coletivo que chocou a sociedade, envolvendo uma adolescente na cidade do Rio de Janeiro.

 

Ativistas e pesquisadores classificam esses movimentos e ideologias como elementos de um fenômeno estrutural conhecido como “misoginia”: o ódio contra as mulheres e a defesa veemente da manutenção de privilégios históricos – sejam eles sociais, culturais, econômicos ou políticos – para o sexo masculino.

 

Grupos misóginos operam com códigos e linguagens específicas para se comunicar e disseminar suas ideias. Uma de suas estratégias é a falsa equivalência, utilizando o termo “misandria” para alegar a existência de um suposto movimento de ódio e preconceito contra homens. Eles chegam a argumentar que o feminismo e leis de proteção à mulher são, na verdade, formas institucionalizadas de aniquilar a masculinidade.

 

Em contraposição ao feminismo, que busca a igualdade de direitos e oportunidades para todos os gêneros, esses grupos adotam o “masculinismo”: um conjunto de ideologias que preconiza uma “masculinidade tradicional”, defendendo direitos e papéis diferenciados para homens e mulheres.

 

A feminista e ativista Lola Aronovich, por exemplo, é alvo de ataques misóginos na internet desde 2008, quando lançou seu blog “Escreva Lola Escreva”. Sua persistente luta contra essas violências resultou na prisão de um dos agressores e, mais significativamente, impulsionou a criação da Lei nº 13.642/2018, que concede à Polícia Federal a autoridade para investigar crimes misóginos online.

 

Ela entende que os agressores que a atacam demonstram características marcantemente similares. Lola observa um padrão que se repete entre esses indivíduos, revelando uma consistência em suas ideologias e modos de ação. Segundo a ativista, essa semelhança facilita a identificação e compreensão de suas motivações.


“Desde o começo do meu blog, percebi que são homens héteros, de extrema direita. Todos apoiam lideranças como Bolsonaro e Trump. Esses homens sempre carregam um combo de preconceitos. Não são apenas machistas. São também racistas, homofóbicos, gordofóbicos, xenófobos, capacitistas”, avalia Lola.


Conheça, a seguir, outras palavras e expressões comuns utilizadas por grupos misóginos na internet. Esta contextualização é essencial para decifrar os discursos de ódio e suas ramificações, contribuindo para uma compreensão mais aprofundada das dinâmicas desses ambientes online.

 

Principais Grupos e Comunidades Misóginas

Machosfera: termo abrangente que designa a vasta rede de fóruns online, canais de YouTube, grupos de WhatsApp e perfis em redes sociais. Esses espaços são dedicados à defesa da masculinidade tóxica, à propagação do ódio às mulheres e à oposição ferrenha aos direitos femininos, consolidando-se como ecossistemas de misoginia.

 

Chans: fóruns anônimos que frequentemente se tornam terrenos férteis para a proliferação de discursos extremistas, o vazamento indevido de fotos íntimas e a orquestração de ataques coordenados contra mulheres, operando sob o véu do anonimato para intensificar a violência e prejudicar reputações.

 

Incels: contração do inglês “involuntary celibates” (celibatários involuntários). São homens que, de forma ressentida e violenta, atribuem às mulheres ou aos padrões sociais a culpa por sua incapacidade de estabelecer parcerias sexuais ou românticas, alimentando um profundo ódio e frustração.

 

Redpill: termo inspirado no filme Matrix, descreve na machosfera homens que supostamente “despertaram” para uma realidade em que as mulheres manipulam e exploram os homens. Essa ideologia prega que os homens devem reaver o domínio e manter as mulheres em posição de submissão, reforçando hierarquias de gênero.

 

MGTOW (Men Going Their Own Way): homens que defendem o total afastamento de relacionamentos com mulheres. Eles alegam que as leis e a sociedade moderna são intrinsicamente injustas com o sexo masculino, optando por um caminho de isolamento e rejeição às dinâmicas sociais tradicionais.

 

Pick Up Artists (PUA): ou “artistas da sedução” em tradução livre. São homens que utilizam técnicas psicológicas e de manipulação para obter sexo. Sua abordagem desumaniza as mulheres, tratando-as como meros objetos ou prêmios a serem conquistados através de estratégias calculadas e enganosas.

 

Tradwife: conceito que se refere a mulheres que abraçam e defendem o retorno aos papéis de gênero tradicionais. Nessas comunidades, elas se dedicam exclusivamente à vida doméstica, à criação dos filhos e se posicionam como submissas ao marido, perpetuando uma visão conservadora da família e da sociedade.

 

Arquétipos e Hierarquias na Machosfera

Blackpill (pílula preta): em contraste com a Redpill, propaga a crença fatalista de que o destino de um homem é inteiramente determinado por sua genética, incluindo aparência, altura e estrutura óssea. Para seus seguidores, a ausência de características físicas tidas como “superiores” impede qualquer sucesso social ou amoroso, independentemente do esforço.

 

Bluepill (pílula azul): termo usado de forma pejorativa para caracterizar homens que creem na igualdade de gênero ou que buscam relacionamentos saudáveis e equitativos. Esses indivíduos são frequentemente vistos pelos grupos misóginos como “alienados”, “ingênuos” ou “fracos”, por não aderirem à sua visão de mundo dominada por hierarquias.

 

Chad: representação do homem geneticamente perfeito, atraente, confiante e sexualmente ativo. Na visão desses grupos, ele é o único tipo de homem que as mulheres realmente desejam, independentemente de seu caráter, reforçando a primazia da aparência física sobre outras qualidades.

 

Alfa: ocupa o ápice da hierarquia social masculina. Idealizado como o homem dominante, líder nato, fisicamente robusto, financeiramente próspero e sexualmente irresistível. Diferente do Chad, que é tido como nascido com privilégios genéticos, o status de Alfa pode ser alcançado através de esforço e uma mudança de mentalidade.

 

Beta: o homem comum, frequentemente retratado como submisso, cooperativo e desprovido de dominância social. Na perspectiva da machosfera, esses homens são ridicularizados por serem supostamente utilizados pelas mulheres apenas pela sua estabilidade financeira, sem qualquer atrativo genuíno.

 

Sigma: popularizado em plataformas como o TikTok, é o arquétipo do “alfa solitário”. Este homem é idealizado por não precisar de validação social, focando exclusivamente em seu próprio sucesso. Contudo, o termo é frequentemente empregado para disfarçar o isolamento social e um profundo desprezo pelas mulheres.

 

Stacy: a contraparte feminina do Chad. Termo utilizado para descrever mulheres consideradas extremamente atraentes e de alto status social. De acordo com as comunidades misóginas, as Stacys se interessam apenas por Chads, desprezando todos os outros homens em sua busca por parceiros de elite.

 

White Knight (Cavaleiro Branco): expressão pejorativa usada para descrever homens que, supostamente, defendem mulheres ou causas feministas com intenções falsas. Acreditam que fazem isso de forma mentirosa, apenas como uma estratégia desesperada para tentar obter atenção feminina ou sexo, sem um compromisso real com a causa.

 

Becky: a mulher considerada de aparência mediana e comum, situada abaixo da Stacy na hierarquia visual distorcida criada por essas comunidades misóginas. Ela representa a mulher “comum”, sem os atributos que, na visão desses grupos, a tornariam desejável para os “Alfas” ou “Chads”.

 

Termos e Gírias Comuns de Ódio

Depósito: gíria ofensiva, disseminada em fóruns e redes sociais, que desumaniza as mulheres ao se referir a elas como meros recipientes para o prazer sexual masculino. Este termo reflete uma visão misógina que objetifica e reduz a mulher a uma função puramente física e instrumental.

 

80/20: teoria pseudocientífica que postula que 80% das mulheres competem exclusivamente por apenas 20% dos homens – aqueles considerados mais atraentes ou ricos. Esta premissa deixa o restante dos homens com poucas ou nenhuma opção de relacionamento, alimentando ressentimentos e teorias de conspiração.

 

Hypergamy (Hipergamia): crença de que as mulheres buscam apenas parceiros de status social ou financeiro superior ao delas, com o intuito de tirar vantagem ou ascender socialmente. Essa visão estereotipa as mulheres como oportunistas, focadas unicamente em benefícios materiais e sociais.

 

AWALT (All women are like that): sigla em inglês para “Todas as mulheres são assim”. Expressão usada para generalizar e estereotipar comportamentos femininos de forma pejorativa. Serve para desqualificar individualidades e reforçar preconceitos, afirmando que todas as mulheres agem de uma única maneira, normalmente negativa.

 

Femoids ou FHOs: termos profundamente ofensivos, que significam “organismo humanoide feminino”. Essas expressões têm como objetivo desumanizar as mulheres, sugerindo que elas são inferiores aos homens e até mesmo subumanas, reforçando uma retórica de ódio e depreciação extrema, comum em grupos misóginos.

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