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Samba-enredo reflete resistência política, analisa sociólogo

Rodrigo Reduzino destaca o papel das escolas de samba na resistência à ditadura e no debate racial brasileiro.

08/02/2026 às 16:06
Por: Redação

O avanço da democracia no Brasil, ao longo do século 20, foi marcado por desafios, especialmente para os carnavalescos, compositores e membros das escolas de samba. Durante o regime militar (1964-1985), muitos foram vigiados, censurados e até presos, enquanto enfrentavam o racismo que pesava contra a população preta no carnaval do Rio de Janeiro.

 

O sociólogo Rodrigo Antonio Reduzino, da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), investiga essa resistência em sua tese de doutorado intitulada "Enredos da Liberdade: o grito das Escolas de Samba pela Democracia". Reduzino analisa os enredos do Grupo Especial do Rio de Janeiro dos anos 1980, que coincidem com a campanha das Diretas Já (1984) e a eleição de Fernando Collor (1989).

 

Essa pesquisa deu origem ao documentário "Enredos da Liberdade", disponível no Globoplay. Além de acadêmico, Reduzino atua na Secretaria de Educação do Estado do Rio de Janeiro e no Departamento Cultural da Mangueira.

 

O papel político do samba-enredo

Na entrevista à Agência Brasil, Reduzino explica que o samba-enredo serve como um grande enunciado político. Apesar de o debate sobre resistência à ditadura militar se concentrar muitas vezes na MPB, as escolas de samba também fizeram suas críticas ao regime em um processo de criação coletiva.

 

"Vivemos em uma sociedade estruturada pelo racismo, que apaga a palavra e a humanidade das pessoas negras. O samba-enredo desafia e provoca, sendo um enunciado político poderoso", afirma Reduzino.


Durante o regime militar, houve uma repressão adicional às escolas de samba e à população preta, intensificada pelo racismo estrutural e pelo Código de Vadiagem, que punia pessoas negras associando-as à vadiagem e à criminalidade.

 

A questão dos bicheiros e o mito da democracia racial

Reduzino aponta a associação feita entre escolas de samba e o jogo do bicho. Este fenômeno se intensificou durante a ditadura, quando os "mecenas" do jogo do bicho emergiram como figuras de influência.


"Os bicheiros circulavam entre poderosos e eram usados para denegrir as escolas de samba, atrapalhando seu papel crítico", comenta o sociólogo.


Reduzino também aborda o mito da democracia racial, tão presente na cultura brasileira. Ele critica como este conceito, forjado por parte da elite, mascara desigualdades reais, como a violência desproporcional sofrida por jovens negros.

 

"A ideia de uma democracia racial foi desmistificada quando se percebeu que celebrava apenas aparências, ignorando as profundas contradições sociais e raciais", conclui Reduzino.

 

"Durante os anos 1970, apenas quatro dos 140 enredos exaltavam o regime militar, mostrando a resistência das escolas de samba", reforça o sociólogo.

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