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A maior operação policial no RJ em 15 anos termina de forma trágica

Operação Contenção resulta em 64 mortes, a mais letal da história estadual.

29/10/2025 às 00:34
Por: Redação

Chacina Marcante na História do Rio

Mais de 150 mil pessoas nos complexos da Penha e do Alemão viveram um dia aterrorizante por causa de uma operação policial repleta de tiros e explosões. Esta ação impactou também aqueles que precisaram circular pelas principais vias da cidade do Rio de Janeiro.

A Operação Contenção, realizada na terça-feira (28), resultou em 64 mortes, incluindo quatro policiais. Ela paralisou o trânsito nas principais vias, forçou o fechamento de escolas, postos de saúde e comércios. O governo do estado afirmou que a ação prendeu 81 pessoas e apreendeu 93 fuzis, juntamente com pistolas e granadas. Esta operação foi a maior e mais letal já registrada nos últimos 15 anos no estado.

Impacto e Críticas

Especialistas apontam que tal operação gerou grande impacto na capital fluminense sem atingir o objetivo de combater o crime organizado, contribuindo apenas para aumentar a violência.

"Essa lógica de medir força armada bélica com estruturas do tráfico sempre resultaram em mortes cada vez maiores, em sofrimento cada vez mais intenso, perda de acesso a serviços públicos, perda de mobilidade urbana, os mais frágeis sempre vão sofrer muito mais. A economia é afetada diretamente e o problema nunca foi sequer arranhado", diz José Cláudio Souza Alves, professor da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro.

Ele acredita que o combate ao crime organizado deve incluir estratégias que ofereçam oportunidades e qualidade de vida à população vulnerável.

"Criar novas formas de interceptar, de investigar, de seguir dinheiro, de prender pessoas, de colocar limitações nesse funcionamento, de dar alternativa real para essa população. Você tem que disputar palma a palmo nesses territórios, essas populações que são facilmente convencidas pela grana da droga, da arma, pela grana dos ilegalismos, dos golpes. Se não pensarmos isso, a gente está absolutamente comprometido, não vamos conseguir", defende.

Problemas na Execução da Operação

Jacqueline Muniz, professora da Universidade Federal Fluminense, em entrevista ao programa Revista Rio, comparou a operação a uma "lambança político-operacional", criticando erros táticos em desacordo com as normas de segurança pública.

“Para colocar 2,5 mil policiais, tem que fazer uma previsão de 7,5 mil a 10 mil policiais, porque tem três turnos de trabalho e escala. Isso quer dizer que para fazer esta operação, que eu chamei de uma lambança político-operacional do governador Castro, teve que se retirar o policiamento de 3 milhões a 5 milhões de pessoas na região metropolitana”, explica.

Ela ressalta que a operação intensificou problemas sem reduzir a capacidade operacional do crime e resultou em mortes e ferimentos, sem avanços contra o crime organizado.

"Isso é muito sério porque põe em risco a vida dos policiais, põe em risco a vida da população, inviabiliza a circulação de pessoas, de mercadorias. Nós estamos produzindo fechamento da Linha Amarela, da Linha Vermelha, da Avenida Brasil, dando um nó em toda a região metropolitana. Ou seja, esquentando a chapa e multiplicando a insegurança”, observa.

Embora acredite que houve justificativa para a operação, Muniz critica sua concepção, considerando-a uma prática politiqueira que coloca em risco vidas sem resultados tangíveis, em desacordo com doutrinas policiais.

Panorama do Crime Organizado

O intuito da operação era cumprir mandados de prisão e frear a expansão do Comando Vermelho, utilizando 2,5 mil policiais civis e militares com apoio do Ministério Público.

Segundo um estudo da Universidade Federal Fluminense e do Instituto Fogo Cruzado, o Comando Vermelho expandiu sua presença territorial de 2022 para 2023 na região do Grande Rio, advindo de um aumento de 8,4%, controlando 51,9% das áreas dominadas por criminosos.

A pesquisa indica que o Comando recuperou áreas perdidas para milícias em 2021, quando estas dominavam 46,5% dos territórios, comparados aos 42,9% do Comando Vermelho.

Impacto na População

Segundo o Instituto Fogo Cruzado, há uma percepção de que ações como a operação não são eficazes no combate ao crime organizado.

“Combater o crime organizado exige outra lógica. É preciso atacar fluxos financeiros, investigar lavagem de dinheiro, fortalecer corregedorias independentes e combater a corrupção dentro do Estado. Tudo que o Rio de Janeiro não faz há décadas”, afirmou em nota.

“Atitudes como essa deixam boa parte da população exposta em uma cidade paralisada. Esse é o planejamento do governo do estado? Operações como essa mostram a incapacidade do governo estadual de fazer política pública de segurança pública”, acrescenta o Instituto.

A Operação Contenção é marcada como a maior chacina policial já registrada no estado do Rio de Janeiro, excedendo tragédias como as do Jacarezinho e da Vila Cruzeiro, ambas ocorridas durante o governo de Cláudio Castro.

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