**Governadores são criticados por especialistas sobre discurso de combate ao crime** *Iniciativa "Consórcio da Paz" é acusada de mascarar contexto real das operações policiais* Conflitos envolvendo violência urbana vão além do uso de armas, abrangendo também a retórica política. Durante operações nos complexos do Alemão e da Penha, no Rio de Janeiro, governadores, em conjunto com Cláudio Castro, lançaram o “Consórcio da Paz”, visando integrar esforços contra o crime organizado no Brasil. O sociólogo Ignacio Cano, da UERJ, questionou a escolha do nome, argumentando ser uma tentativa de alterar o significado das ações que resultaram em 121 mortes. Segundo Cano, o projeto deveria se chamar "Consórcio da Morte" devido às consequências negativas, criticando a abordagem dos governadores de direita em promover letalidade policial. Além de Castro, compõem o consórcio Tarcísio de Freitas, Romeu Zema, Jorginho Mello, Eduardo Riedel, Ronaldo Caiado e Ibaneis Rocha. Estes líderes adotaram o termo "narcoterrorismo" para descrever facções criminosas, especialmente aquelas com atuação central no Rio de Janeiro e São Paulo. Jacqueline Muniz, da UFF, classificou isso como um desvio que prejudica a segurança pública e esconde ineficiências políticas. Segundo a especialista, o uso de tais termos demanda mais recursos sem precisar de justificativa. Ignacio Cano destacou que "narcoterrorismo" é conceitualmente incorreto, já que terrorismo geralmente possui motivações políticas, enquanto o foco do tráfico é o lucro - uma contradição, portanto. A legislação brasileira, através da Lei n° 13.260 de 2016, define terrorismo como ações motivadas por preconceito ou discriminação para provocar medo. Já as facções do tráfico são vistas legalmente como organizações criminosas. Entretanto, um projeto de lei busca redefinir isso, ampliando o conceito de terrorismo para incluir o tráfico de drogas, iniciativa liderada pelo deputado Coronel Meira. Pressões externas, como dos governos da Argentina, Paraguai e Estados Unidos, também impulsionam essa reclassificação. Especialistas acreditam que a adoção do termo "narcoterrorista" alinharia politicamente o Brasil com essas nações, porém fragilizaria a democracia interna. Segundo Jonas Pacheco, a utilização dessa nomenclatura permitiria interferências internacionais, enfatizando a tendência de dominação ideológica americana na América Latina. O termo "terrorismo" facilita ações militares sem restrições legais, porém, segundo Cano, nenhuma legislação antiterror autoriza execuções sumárias. Outros debates envolvem a expressão "guerra às drogas". Cientistas afirmam que essa linguagem justifica ações violentas em territórios vulneráveis. Pacheco ressalta que a segurança deve preservar vidas, em conformidade com leis públicas, e Cano defende que dar carta branca às polícias representa um risco global. Para Muniz, transformar o combate ao crime em espetáculo repressivo exige ressignificar a linguagem usada. Ela identifica um projeto autoritário onde a insegurança é cultivada para fidelizar cidadãos pelo medo, resultando na abdicação dos direitos civis em troca de uma falsa sensação de proteção.