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Mães de mortos no rio denunciam execuções e tortura em operação policial

Familiares descrevem cenas chocantes, com relato de braço arrancado, e ativistas condenam a letalidade da Operação Contenção.

29/10/2025 às 20:02
Por: Redação
A Praça São Lucas, no Complexo da Penha, se tornou palco de uma cena que repercutiu em todo o país e internacionalmente na manhã da última quarta-feira, dia 29. Dezenas de corpos foram enfileirados, rodeados por familiares, predominantemente mulheres, que expressavam seu luto e criticavam veementemente a intervenção estatal.Elieci Santana, dona de casa de 58 anos, era uma delas. Ela relatou que seu filho, Fábio Francisco Santana, de 36 anos, enviou uma mensagem indicando sua rendição e compartilhando sua localização. Apesar de ter sido algemado, a família afirma que o braço dele foi arrancado no local da algema.Entre os familiares presentes na praça, era unânime o relato de que diversas vítimas teriam sido mortas mesmo após se renderem. Os próprios moradores transportaram os corpos para o local na caçamba de carros durante a madrugada.Tauã Brito, confeiteira cujo filho Wellington faleceu na operação, contou que muitos baleados ainda permaneciam vivos na mata no dia anterior. Ela procurou o Hospital Getúlio Vargas, pedindo ajuda para resgatar os feridos, mas a subida foi impedida. Somente à noite, depois da retirada da polícia, os moradores iniciaram a busca por seus parentes na mata. Ela questionou se tal situação seria aceitável para o governo.Emocionada, Tauã disse à reportagem que apenas desejava retirar o corpo do filho da via pública. Ela expressou ceticismo quanto à responsabilização, afirmando que, enquanto muitos choravam, “lá fora tem um montão de gente aplaudindo”, e classificou o ocorrido como uma chacina.O advogado Albino Pereira, que representa algumas das famílias, acompanhou os acontecimentos e identificou evidências contundentes de tortura, execuções sumárias e outras violações de direitos humanos. Ele observou que marcas de queimadura e disparos à queima-roupa eram visíveis sem necessidade de perícia. O advogado citou ainda a chegada de um corpo sem cabeça, que foi transportada em um saco, classificando os eventos como um extermínio.Os corpos começaram a ser recolhidos pela Defesa Civil na parte baixa da comunidade por volta das oito e meia da manhã, sendo então encaminhados para o Instituto Médico Legal (IML).Antonio Carlos Costa, fundador da ONG Rio da Paz, esteve na Praça São Paulo e criticou a alta letalidade da operação. Ele lamentou a ausência de uma presença estatal completa, que oferecesse saneamento básico, moradia digna, educação de qualidade e hospitais adequados. Ele indagou a razão pela qual a resposta histórica persiste na violência e questionou a passividade da sociedade diante dos fatos.A Operação Contenção, conduzida pelas polícias Civil e Militar fluminenses, resultou em 119 óbitos, com um total de 115 civis e quatro policiais, conforme o balanço mais recente. O governo estadual classificou a ação como “um sucesso”, sustentando que as vítimas fatais teriam reagido violentamente e que os que se renderam foram detidos. Cento e treze pessoas foram presas no total.Especialistas consultados pela Agência Brasil criticaram a Operação, ressaltando o grande impacto gerado na capital fluminense e a falha em conter o crime organizado. Jacqueline Muniz, professora do Departamento de Segurança Pública da Universidade Federal Fluminense (UFF), descreveu a operação como “amadora” e uma “lambança político-operacional”.Movimentos populares e representantes de comunidades também repudiaram as ações policiais, reiterando que “segurança não se faz com sangue”. Na manhã de hoje, dia 29, ativistas que testemunharam a remoção de mais de sessenta corpos de uma área de mata no Complexo da Penha caracterizaram a ação policial como um massacre.A operação mobilizou um efetivo de dois mil e quinhentos policiais e representa a maior no estado nos últimos quinze anos. Os confrontos e as subsequentes retaliações de criminosos provocaram pânico generalizado na cidade, com tiroteios intensos que levaram ao fechamento de vias essenciais, escolas, estabelecimentos comerciais e unidades de saúde.

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