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Camundongos substituídos por testes in vitro em antivenenos

Nova metodologia busca reduzir sofrimento animal e diminuir custos na pesquisa.

22/10/2025 às 10:47
Por: Redação

Renata Norbert, bióloga do Instituto Nacional de Controle da Qualidade em Saúde (INCQS) da Fundação Oswaldo Cruz, liderou uma pesquisa inovadora que propõe a substituição de camundongos por testes in vitro no controle de qualidade de soros antiveneno para cobras do gênero Bothrops. Este trabalho foi destacado no 13º Congresso Mundial de Alternativas ao Uso de Animais, além de receber uma menção honrosa do Centro Nacional do Reino Unido para a Substituição, Refinamento e Redução de Animais em Pesquisa.

As serpentes Bothrops, pertencentes à família Viperidae, são conhecidas como jararacas, cotiaras e urutus, responsáveis pelo maior número de acidentes ofídicos no Brasil. Apenas neste ano, o DataSUS registrou 12 mil desses incidentes.

Renata explicou que desde 2001 o INCQS busca substituir o uso de camundongos nos testes para evitar seu sofrimento, além de reduzir custos e prazos de pesquisa. A produção de antiveneno inclui diversas etapas de controle interno de qualidade, empregando muitos camundongos para liberar lotes de produto no Programa Nacional de Imunização.

"Conseguimos avançar na fase de pré-validação, algo que até o momento não existia para antivenenos", destacou Norbert, referindo-se à inovação de sua pesquisa em comparação aos testes existentes para cosméticos e outros produtos.

A pesquisa está próxima de verificar se a metodologia pode ser reproduzida por outros laboratórios, o que garantiria sua robustez. "Os outros laboratórios vão testar a metodologia que pré-validamos para observar se obtêm os mesmos resultados. Esse foi nosso maior diferencial: avançar mais um passo na validação”, afirmou Renata.

Metodologia

A proposta é substituir camundongos por células Vero, cultivadas em laboratório. Nessas células, fixadas em placas, aplica-se uma mistura de soro com veneno. Caso as células permaneçam intactas, o soro é considerado eficaz. Havendo toxicidade, o soro é rejeitado. Após a validação, espera-se integrar o método à farmacopeia brasileira, com kits de ensaio distribuídos para comparação de resultados em vários laboratórios.

Com reconhecimento internacional, Renata acredita na implementação do projeto até março de 2026 e planeja uma reunião com produtores em dezembro para expandir o método. O potencial de redução de custos pode chegar a 69%.

O teste in vitro, mais simples e rápido que os convencionais, evita o sacrifício dos roedores, criados no ICTB/Fiocruz. Enquanto o INCQS já utiliza células para liberar vacinas, esta pesquisa é pioneira no uso para venenos. Renata espera também levar o método a outros países onde as cobras Bothrops são endêmicas.

Envenenamento

A serpente Bothrops é responsável por cerca de 90% dos casos de envenenamento no Brasil, o que pode resultar em morte, hemorragia, necrose ou amputação dos membros afetados. Apesar disso, a indústria farmacêutica não investe significativamente em tratamentos, classificados pela OMS como doenças tropicais negligenciadas.

Os testes de qualidade dos antivenenos são realizados por diversas entidades do SUS, entre elas o INCQS, Instituto Vital Brazil, Instituto Butantan e a Fundação Ezequiel Dias.

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