Produtos como soda cáustica, desentupidor, alvejante e limpa-forno são comuns na limpeza das residências, mas representam riscos significativos quando ao alcance das crianças. Um pequeno descuido pode resultar em consequências duradouras. O Centro de Endoscopia Avançada do Hospital Regional de Mato Grosso do Sul (HRMS) é uma referência no estado para tratar de ingestões acidentais de substâncias cáusticas e corrosivas. A médica Caroline Leonardi, especialista em endoscopia, comenta que a maior parte das vítimas são crianças com menos de cinco anos, mas também há casos entre adultos. "Esses produtos, ao serem ingeridos, podem causar queimaduras sérias no esôfago e no estômago, além do trato respiratório. Nos piores casos, as lesões evoluem para perfurações e complicações prolongadas como o estreitamento do esôfago, dificultando a ingestão de alimentos ou líquidos", afirma Caroline.
A médica enfatiza a importância da conscientização sobre esses perigos. Quando ocorre o estreitamento, são necessários procedimentos regulares para dilatar o esôfago, algo realizado pelo centro avançado de endoscopia. Segundo Caroline, a prática de produzir sabão de forma caseira em Mato Grosso do Sul contribui para o aumento dos acidentes. "Muitas pessoas guardam soda diluída em garrafas reutilizadas, o que pode levar pessoas a ingeri-las por engano, pensando ser água. É crucial educar e evitar o acesso a esses materiais", alerta ela.
Em situações de ingestão acidental, é importante buscar uma Unidade de Pronto Atendimento (UPA) ou Centro Regional de Saúde (CRS) imediatamente. O paciente pode ser encaminhado à unidade de referência se necessário.
Um caso que ilustra esses riscos é o de Tamara Ferreira Araújo, que viu sua vida mudar num instante quando sua filha Ana Alice, de seis anos, ingeriu por engano um desentupidor em abril deste ano. Tamara misturou o produto e o deixou em um copo na mesa. Enquanto atendia outra filha, Ana Alice bebeu o conteúdo pensando ser dipirona. "Saí por um momento e, quando voltei, vi que ela ingeriu. Foi num instante", relembra Tamara.
Após o incidente, a criança começou a apresentar tosse, tremores e suor excessivo. Ela foi levada rapidamente ao CRS e transferida para o HRMS. Ana Alice ficou inicialmente quatro dias internada e depois retornou, permanecendo mais três meses no hospital. Agora, embora esteja em casa, continua em recuperação, com visitas semanais ao HRMS para dilatação do esôfago, além de acompanhamento de vários especialistas. Tamara aconselha: "Pais, não deixem nada ao alcance das crianças, pois um acidente acontece em um piscar de olhos".
Para prevenir acidentes, é vital manter produtos de limpeza fora do alcance e visão das crianças, não reutilizar garrafas para substâncias perigosas, identificar corretamente produtos perigosos e, no caso de acidentes, buscar atendimento médico imediato sem tentar provocar vômito ou administrar qualquer líquido adicional.