O presidente Luiz Inácio Lula da Silva voltou a criticar a continuidade do conflito em Gaza, destacando a resistência global em relação à criação de um Estado palestino. Sua declaração ocorreu neste sábado (25), durante a cerimônia em que recebeu o título de doutor "Honoris Causa" em Filosofia e Desenvolvimento Internacional do Sul Global, concedido pela Universidade Nacional da Malásia, em Putrajaya, a capital administrativa do país.
"As comunidades universitárias em todo o mundo têm elevado suas vozes contra a brutalidade do genocídio em Gaza e contra a inércia moral que impede até hoje que o Estado Palestino seja criado. Quase sempre são os jovens que nos recordam que a paz é o valor mais precioso da humanidade", discursou Lula.
O presidente enfatizou que aumentar tarifas comerciais entre países não deve ser usado como forma de coerção internacional. "Nações que não se dobram ao colonialismo e à dicotomia da Guerra Fria não se intimidarão diante de ameaças irresponsáveis", afirmou, sem citar diretamente o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, que recentemente elevou as tarifas de importação sobre produtos brasileiros em 50%.
Ao defender o multilateralismo e a necessidade de mudanças nos organismos internacionais, Lula destacou o papel crucial do Sul Global na busca por justiça e na superação das desigualdades. "A defesa de uma ordem baseada no diálogo na diplomacia e na igualdade soberana das nações está no cerne da proposta brasileira de reforma das Nações Unidas, que sem maior representatividade o Conselho de Segurança seguirá inoperante e incapaz de responder aos desafios do nosso tempo."
Na esfera econômica, o presidente brasileiro criticou a disparidade de poder de voto no Fundo Monetário Internacional (FMI), onde os países ricos possuem nove vezes mais influência que o Sul Global, um grupo de nações da América Latina, Ásia e África que compartilham um passado colonial e desigualdades econômicas.
Lula também comentou sobre o protecionismo e a inatividade da Organização Mundial do Comércio (OMC), dizendo que estas situações criam uma assimetria insustentável para o Sul Global. "É a hora de interromper os mecanismos que sustentam há séculos o financiamento do mundo desenvolvido às custas das economias emergentes em desenvolvimento."
Ele ainda destacou a necessidade de que a estrutura financeira mundial direcione recursos para o desenvolvimento sustentável dos países emergentes. "Não podemos vislumbrar um mundo diferente sem questionar um modelo neoliberal que aprofunda desigualdades: 3 mil bilionários ganharam 6,5 trilhões de dólares, desde 2015. Esta cifra supera o PIB nominal atual da Asean [Associação de Nações do Sudeste Asiático] e do Brasil somados."
Lula permanecerá na Malásia até terça-feira (28), participando de encontros com empresários locais e do Sudeste Asiático. No domingo (26), terá uma reunião com Donald Trump para discutir as tarifas impostas aos produtos brasileiros importados pelos Estados Unidos.